Afantasia: Como Escrevo Sem Ver Nada na Mente (Meu Jeito de Criar)

Escrever sempre foi um desafio pra mim. Mas o problema não era gramática ou sintaxe, porque eu sempre soube onde colocar cada vírgula. A questão é que eu não vejo nada na mente, literalmente. Quando fecho os olhos, é tudo escuro. Não há rostos, não há paisagens, não há rascunhos mentais. Tenho Afantasia.

Na produção textual, eu nao visualizo mentalmente as palavras nem estruturas de texto. Meu trabalho criativo é baseado no ritmo: cada parágrafo soa como se fosse uma música. Pra mim, o ponto final nunca foi uma regra gramatical, sempre foi uma respiração.

Pessoa real com expressão pensativa segurando uma maçã vermelha, com elementos visuais de ondas sonoras e notas musicais sobre a cabeça

Você consegue visualizar nitidamente a maçã? Muitas pessoas não conseguem.

Faça um teste rápido:

Feche os olhos e imagine uma maçã vermelha sobre uma mesa de madeira. O que você vê?

A) Vejo a maçã nítida, com brilho e texturas.
B) Vejo um vulto ou uma imagem embaçada.
C) Não vejo nada. Apenas a escuridão.
Se você escolheu A: Sua mente visual é bem ativa! Você usa a imaginação de forma padrão, "vendo" o que descreve.
Se você escolheu B: Você tem alguma capacidade de visualização, mas pode ser menos vívida. Muitos com afantasia experimentam algo similar.
Se você escolheu C: Você pode ter Afantasia. Para nós, a "tela mental" está sempre desligada. Este artigo explora como isso impacta a forma como colocamos as palavras no mundo.

O ponto aqui é que a afantasia é um espectro: vai do nada absoluto (como eu vivo) até imagens fracas, vagas ou só flashes. No outro extremo, tem gente com hiperfantasia, que "vê" tudo na mente como se fosse real. A maioria fica no meio, com uma visualização razoável. É exatamente nesse "meio" que a tradição escolar da escrita se baseia.

Por isso mesmo, a escola sempre partiu do pressuposto de que todo mundo consegue visualizar o texto antes de escrevê-lo: como um bloco organizado, quase uma planta arquitetônica na cabeça. Esperam que você "veja" o esqueleto, o plano, a introdução e a conclusão como partes de um desenho técnico.

Eu nunca consegui acessar esse plano. Quando tentava escrever dentro desse modelo visual, travava. Não que me faltasse o que dizer, mas porque não conseguia “ver” o caminho antes de existir. Não consigo planejar graficamente. A escrita acadêmica exige mapa. Eu não tenho mapa. O que eu tenho é som.

Quando escrevo, não visualizo frases. Eu ouço. É como se uma voz estivesse lendo o texto na minha cabeça. Sei que uma frase acabou porque ela fechou o ritmo. Sei que um parágrafo terminou porque o som pediu pausa. Talvez por isso a escrita escolar sempre me pareceu artificial. Os conectores obrigatórios, os “portanto”, os “além disso”, tudo isso quebra o fluxo sonoro. Funciona no papel. Não funciona no ouvido.

Ainda assim, curiosamente, eu conseguia escrever quando era preciso. Em provas ou vestibulares, o texto simplesmente acontecia, sem rascunho. Hoje entendo: eu não construía uma redação. Eu executava uma música. Começava, desenvolvia, encerrava. Pelo ritmo. Não pela visualização.

Toque aqui: Qual a diferença real entre Ver e Ouvir um texto?

Escrita Visual: É geométrica. O autor "vê" os blocos de texto e os organiza como uma planta de arquitetura antes de escrever.


Escrita Sonora: É rítmica. O autor segue a melodia das palavras. É um processo instintivo, como uma composição musical.

O problema é que o sistema não reconhece esse tipo de escrita. Ele confunde estilo com erro e silêncio com falha de coesão. Para quem tem Afantasia, escrever dentro do modelo acadêmico não é apenas complexo. É antinatural.

Isso não significa que pessoas com afantasia escrevem mal. Significa que escrevem de outro jeito. Um jeito mais auditivo. Mais rítmico. Menos geométrico. Quando esse jeito encontra espaço, o texto vive. Quando é forçado a um padrão que não se encaixa, ele endurece.

Talvez o problema nunca tenha sido falta de técnica. Talvez tenha sido excesso de um único modelo. A escrita não é uma só. A mente também não. Ensinar a escrever como se todos pensassem da mesma forma é uma violência silenciosa. Para alguns, escrever é ver. Para outros, como eu, escrever é ouvir. E ouvir, no fim, também é uma forma legítima de pensar.