Comecei a assistir futebol na televisão em 1994, justamente no ano da Copa do Mundo dos Estados Unidos. Eu ainda era criança, mas já existia aquele sentimento coletivo que só o futebol consegue provocar. O país inteiro parava. As pessoas comentavam nas ruas, nas filas, nas casas, e a televisão parecia ganhar outra importância durante uma Copa.
Curiosamente, antes mesmo de realmente acompanhar futebol, o nome que eu mais ouvia era o de Maradona. Eu praticamente não o tinha visto jogar, mas já existia uma magia em torno dele. Era tratado quase como uma entidade do futebol. As pessoas falavam de seus dribles, da Copa de 1986, dos gols impossíveis. Mesmo sendo criança, eu já percebia que Maradona parecia maior do que o próprio futebol.
Depois veio um fenômeno que talvez tenha sido o jogador mais impressionante que meus olhos já viram em explosão ofensiva: Ronaldo Fenômeno. O que ele fazia parecia incompatível com o corpo humano. Arrancada, força, velocidade, drible curto, finalização. Era um jogador que destruía defesas inteiras em segundos. Existe uma diferença entre grandes jogadores e jogadores que causam espanto. Ronaldo causava espanto.
Mais tarde surgiu Ronaldinho Gaúcho, talvez o jogador mais fascinante que vi atuar. Ronaldinho jogava sorrindo, improvisando, criando jogadas que pareciam nascer segundos antes de acontecer. Era arte misturada com futebol. Até quem não torcia para o time dele parava para assistir. Pouquíssimos atletas transmitiram tanta alegria jogando bola.
Também acompanhei o início da carreira de Messi. No começo, parecia apenas um garoto muito habilidoso vindo das categorias do Barcelona. Mas rapidamente ficou claro que existia algo diferente ali. O controle de bola, a visão de jogo, a naturalidade absurda com que passava por adversários transformaram Messi em um dos maiores talentos ofensivos da história do futebol.
Mas existe um jogador que, na minha opinião, muitas vezes recebe menos reconhecimento histórico do que merece: Cristiano Ronaldo.
Talvez ele não tenha a genialidade espontânea de Maradona, o improviso de Ronaldinho ou o talento natural de Ronaldo Fenômeno. Porém, quando se observa a carreira completa, fica difícil encontrar alguém que tenha sido tão dominante em contextos tão diferentes.
Cristiano foi extraordinário no Manchester United ainda muito jovem, dominante durante anos no Real Madrid e extremamente competitivo no futebol italiano pela Juventus. Não foi apenas um jogador que passou por grandes ligas. Ele foi protagonista em três dos campeonatos mais difíceis do mundo.
Além disso, construiu uma carreira baseada em reinvenção constante. Começou como ponta driblador, virou atacante decisivo e depois se transformou em um dos maiores finalizadores da história. Chuta com os dois pés, cabeceia como poucos atacantes já fizeram, bate faltas e manteve nível competitivo altíssimo durante quase duas décadas.
A impressão que tenho é que parte das pessoas reduz Cristiano Ronaldo à discussão de “talento natural”, ignorando o tamanho histórico da carreira dele. E futebol também envolve desempenho, impacto, regularidade, adaptação e capacidade de decidir durante anos.
Por isso, sinceramente, acho difícil fazer qualquer lista histórica sem colocar no topo nomes como Pelé, Maradona, Messi e Cristiano Ronaldo. Cada um representa uma forma diferente de grandeza dentro do futebol.
Depois desse grupo, eu colocaria jogadores como Cruyff, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Zidane e Neymar.
E aqui faço questão de mencionar Neymar. Existe um hábito de analisar sua carreira apenas pelo que ele “poderia ter sido”, o que muitas vezes cria uma visão injusta. Neymar é um jogador de genialidade rara. Drible curto, criatividade, visão ofensiva, improviso e capacidade técnica praticamente únicos na história do futebol.
Durante o auge, Neymar fazia coisas que poucos jogadores do mundo sequer tentavam fazer. Mas a discussão sobre sua carreira quase sempre acaba voltando para aquilo que faltou: Bola de Ouro, prêmio de melhor do mundo, Copa do Mundo. O problema é que Neymar surgiu justamente na mesma era de Messi e Cristiano Ronaldo, dois jogadores que elevaram o nível de exigência histórica do futebol a um patamar praticamente impossível.
No fim, cada geração terá seus favoritos. Alguns preferem força física, outros valorizam inteligência tática, improviso, liderança ou genialidade pura. Mas uma coisa continua igual desde 1994, quando comecei a assistir futebol pela televisão: certos jogadores conseguem ultrapassar números e títulos. Eles viram memória afetiva coletiva.